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terça-feira

Homilia de hoje: Cristãos na vida Cívica* 01/06/2010

Para os laicistas e secularistas fanáticos , os termos César e Deus são eliminatórios, não podem subsistir juntos, estão em confronto. A fé em Deus e a religião são questão privada e pessoal, sem espaço social. Os ministros do evangelho e os cristãos em geram devem limitar o âmbito da sua voz aos templos e sacristias. Assim tiram a Deus e a seu reino o que lhe pertence: a vida do homem. Jesus disse: Anunciai o evangelho a todas as pessoas; ilumine a vossa luz todos os homens para que dêem glória a Deus.

Outros, pelo contrario, os teístas empedernidos, pensam que a autoridade civil deve estar ao serviço do evangelho para implantar pela força do braço secular a lei de Cristo. Assim negam a Cesar a sua autonomia e os seus direitos.

Mas na solução que Jesus deu não se opõe a Cesar a Deus, o temporal ao espiritual, o político ao religioso, a autoridade civil ao reino de Deus.Na sua resposta, Cristo não sacraliza a autoridade do que manda, mas reconhece-lhe o direito a mandar e apresenta a obediência civil como um dever do cidadão; por isso concorda com o pagamento do imposto. Mas, reconhecendo a autonomia do terreno e do poder civil, estabelece, pelo menos implicitamente, uma hierarquia de termos que a nível da consciência dá primazia a Deus sobre Cesar.

Cristo apresenta-os como deveres complementares e não eliminatórios em litígio permanente. O “dar a Deus o que é de Deus”é o primeiro; mas daí dimana o fundamento e a obrigação de “dar a Cesar o que é de Cesar”.

A obrigação da autoridade publica é o ordenamento da sociedade para o bem comum; e para conseguir este objetivo conta necessariamente a lei moral, isto é, a lei de Deus. Por isso que a lealdade do cidadão deve à autoridade civil não há de estar necessariamente em luta com a sua obediência a Deus. Mas no caso de conflito de deveres por abuso da autoridade pública, é legítima a discordância, a objeção de consciência , a oposição, a resistência e inclusivamente a desobediência, quando estas normas e lei vão contra a lei natural que Deus colocou em nós ao nos criar. Tudo que vai contra a lei natural, deve ser desobedecido, para que venhamos a obedecer a Deus. Um exemplo que colocar como lei e que vai contra a lei natural: o aborto. Tudo que vai contra a lei natural, nunca devemos obedecer!

O cristão deve ser o melhor cidadão, como o foi o próprio Jesus, que acatou a autoridade civil e a lei religiosa do seu tempo, se bem com lealdade Critica. Nada do que devemos a Deus o tiramos a Cesar; mas também temos que estar conscientes de que a fé religiosa não nos exime, antes nos obriga a prestar á autoridade estatal legítima e justa a obediência devida e a colaboração cívica: pagamentos de impostos, cumprimento das leis, responsabilidade cívica, participação democrática, critica construtiva e solidariedade na justiça.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

sábado

Homilia de hoje: A Autoridade de Jesus*

Em repedidas ocasiões, especialmente na conclusão dos discursos de Jesus, os evangelistas constatam que a multidão gostava do Senhor e ficava espantada com os Seus ensinamentos e o modo de os expressar “porque falava com autoridade e não como os seus escribas”, que repetiam fórmulas feitas e tradições complicadas e envelhecidas. Assim se expressava Cristo no Sermão na Montanha. Por alguma coisa Ele era a Palavra de Deus em voz humana, à qual temos de nos remeter sempre.

A Palavra de Jesus era alegre e libertadora, novidade que introduzia na salvação do Reino de Deus; não como faziam os rabinos e os mestres judeus do Seu tempo. Estes interrogam Cristo no plano jurídico sobre a origem da Sua autoridade. A sua pergunta não significava simplicidade de coração e disposição firme para crer, mas atitude crítica e fingimento de espírito. Se não queriam ver a evidência das obras, milagres e ensinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, também não admitiriam a explicação do Messias sobre a origem divina da Sua autoridade.

Pela estúpida alegação dos interlocutores de Jesus optamos nós também cada vez que não permitimos a Deus entrar na nossa vida, nos fazemos surdos à sua voz ou queremos apresentar nós as perguntas. Não falta hoje em dia quem também questione autoridade de Cristo, do seu evangelho e da Igreja que o transmite e interpreta. Não é que Deus nos peça uma anuência servil, boba e infantil. Mas essa anuência deve ser sempre acompanhada de uma abertura humilde à verdade de Deus e ao seu amor salvador, desmontando as nossas faltas certezas e a auto-suficiência religiosa, aceitando a sua revelação e a sua palavra, assumindo a necessidade de nos convertermos , amando os irmãos, especialmente os últimos, como fez Cristo, e, definitivamente, acreditando nele e em Deus Pai.

Só uma fé humilde pode ver Deus através do véu da humanidade de Cristo, através da sua palavra e nos irmãos mais pobres, assim como a sua presença na Eucaristia sob as espécies sacramentais do pão e do vinho. Com toda a certeza, o dom da fé não o conseguem os auto-suficientes nem os sofisticados racionalistas, mas os homens e mulheres de boa vontade que respondem com simplicidade à poderosa ação de Deus, presente entre nós sob aparências humildes e, inclusivamente, desprezíveis às vezes.

Por isso, com certa ocasião, cheio da alegria do Espírito Santo, Jesus exclamou: Dou-te graças, paim Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

sexta-feira

Homilia de Hoje: O Novo Templo de Deus* 28/05/2010

O evangelista João situa este episódio do templo – no começo da atividade apostólica de Nosso Senhor Jesus Cristo – diferentemente dos sinóticos (evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas), que o deixam para o final. Depois de purificar o templo à Sua maneira, expulsando os vendedores e cambistas, Jesus fala de si como o novo templo para uma religião e aliança novas: “Destruí este templo e em três dias eu o levantarei… Ele falava do templo do seu corpo”. E os Seus discípulos assim o entenderam depois da Ressurreição de Cristo.

Como disse o Senhor à Samaritana, “aproxima-se a hora, e já está aqui, em que os que quiserem prestar culto verdadeiro adorarão o Pai em Espírito e verdade, pois o Pai deseja que lhe prestem culto assim”. Com o seu gesto “violento” Jesus declara abolidos o templo e o culto da antiga aliança, e descobre-nos o mistério da Sua Pessoa. Ele mesmo encarna o novo templo e a nova aliança, o novo culto e a nova religião, o novo caminho de acesso ao Pai e ao centro cultual do novo povo de Deus, a Igreja, casa de oração aberta a todos os povos.

Após a Ressurreição de Cristo, os apóstolos e os primeiros cristãos continuaram a frequentar o templo todos os dias, como o lemos nos Atos dos Apóstolos. Mas não tardou a chegar a ruptura já insinuada pela apologia do culto espiritual que o diácono Estêvão fez perante o sinédrio. Com a destruição de Jerusalém e do seu templo pelo imperador Tito (ano 70) e com a inimizade declarada da sinagoga judaica, que, a essa altura, excomungou os discípulos de Jesus, consumou-se a ruptura total da jovem Igreja com o templo de Jerusalém.

Todavia os primeiros cristãos não sentiam necessidade de construir outro novo [templo], pois celebravam o culto e a Eucaristia nas casas e na catacumbas. A princípio não houve templos, basílicas ou catedrais. Aqueles cristãos estavam conscientes, e devemos estar também nós, de que a assembleia de fé é a autêntica Igreja de Deus, o Seu santuário espiritual, prolongamento de Cristo, que é o Templo da Nova Aliança. Inclusivamente cada cristão, cada batizado, entra como pedra viva na construção do templo do Espírito; mais ainda: é templo de Deus porque o Espírito do Senhor habita nele.

Que o Senhor nos dê a graça de adentrarmos constantemente neste templo, que somos nós e, com a mesma força que Jesus empregou para expulsar os cambistas, venhamos a expulsar tudo o que está em nós que vem a macular este templo santo, que somos nós, onde o Espírito é o nosso Doce Hóspede.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

quinta-feira

Homilia de hoje: Os Gritos de Fé*

Nos evangelhos vemos freqüentes curas de cegos feitas por Jesus; era um dos sinais messiânicos da chegada do reino de Deus. Pois bem, se todo o milagre é “sinal”, talvez mais que nenhum outro o é uma cura de cegueira. Pela antítese manifesta entre trevas e luz, passam a ser a cegueira e a vista um símbolo da incredulidade e da fé, respectivamente. A incredulidade consciente e o ateísmo ativo constituem uma cegueira de espírito que deixa a vida do homem totalmente às escuras, sem que possa discernir a sua vocação superior, a sua própria dignidade e o seu destino final.

Mas há algo mais. O cego Bartimeu é um fiel expoente do ser humano, desamparado e cego. Em maior ou menor escala, todos estamos refletidos nele.

O cego Bartimeu é também um modelo de fé resoluta e tenaz, um homem que não se envergonha de se reconhecer limitado e gritar, ainda que a multidão o repreenda. Quando se lhe apresenta a sua oportunidade, libera-se dos empecilhos saltando a capa e de um salto aproxima-se de Jesus. E uma vez curado, segue-o com decisão total, com a mesma fé que o conduziu à sua cura. Embarca numa viagem totalmente nova, como pessoa livre e responsável que glorifica a Deus pelas suas maravilhas nele operadas; mas não sem antes ter abandonado a única coisa que tinha para viver, a capa das esmolas, tal como outros deixaram a maca ou as muletas, sinal da sua miserável vida interior e das falsas seguranças da nossa pobre condição.

Para captar os sinais de Deus na história humana, no caminho pessoal de cada um e, sobretudo, na pessoa de Jesus que é o grande sinal do Pai e o sacramento do encontro do homem com deus, necessitamos da fé de Bartimeu. A fé é a grande sabedoria de Deus, o grande tesouro porque vale a pena sacrificar tudo. Porque com a fé vêem-se as coisas, a vida e as pessoas com outros critérios: os de Deus e não os do homem.

De contrario, os acontecimentos de cada dia não deixarão de ser meros sucessos fortuitos, quando não absurdos, simples resultados de circunstâncias aleatórias; e não como de fato são, história em que Deus nos ama e nos salva, presença do Senhor nos sinais dos tempos e ocasião de discernimento evangélico perante os valores morais e os problemas do progresso humano, da vida e da morte.

Mas a fé há que desperta-la e ampará-la mediante o amor. Esse não passa ao lado mas olha para o irmão, como fez Jesus ao passar ao lado do cego Bartimeu, olhando-o com carinho. Crer para ver e ver, e amar para crer!

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.


quarta-feira

Homilia de hoje: Vocação de Serviço*

Jesus, no evangelho de hoje, aproveita a ocasião para instruir os discípulos e a cada um de nós sobre o exercício da autoridade na comunidade cristã. “Sabeis que aqueles que são conhecidos como chefes dos povos os tiranizam e os grandes os oprimem. Vós, nada disso: o que quiser ser grande, seja o vosso servidor; e o que quiser ser o primeiro, seja o servo de todos.” Jesus propõe-lhes um mundo totalmente ao contrario.

Cristo apela a um fato de experiência humana. Toda a autoridade, por dinâmica interna, tende para o domínio e exclusivamente, em casos extremos, para a tirania e a exploração dos semelhantes. Isso acontece tanto a nível político e econômico como ideológico, administrativo e pratico sem que fique excluído o religioso. A vontade de poder, e não de servir, é a raiz de todos os males sociais, o pecado original que vicia a convivência humana, montada sobre a luta e a competência. Embora haja exceções honrosas, costuma prevalecer a ambição de domínio sobre a atitude de serviço; e adota as mais variadas formas, avassaladoras e descaradas umas, hipócritas e sutis outras.

Muitos empresários e políticos seqüestraram o verbo “servir”; mas seus “serviços”passam fatura ao cliente, seja em dinheiro ou em poder. Não é este o estilo de serviço que Jesus propõe aos doze e a todos nós, mas um serviço sem fatura. Na Igreja não há ministério autentico nem função ministerial ou comunitária que não seja serviço aos irmãos. Esse é o significado original de “ministério”(diakonía em grego, isto é, serviço).

A vocação de serviço que Jesus propõe no evangelho de hoje, não é tarefa somente da hierarquia na comunidade cristã, mas também dos fieis leigos. É a comum missão eclesial de serviço que nos faz ser fraternos e une a todos os membros do povo de Deus em comunhão de vida e destino – nosso destino é o céu! Pastores e povo, todos na Igreja, estamos ao serviço da missão de Jesus, que é serviço ao reino de Deus.

A razão última desta proposta baseia-se no exemplo de Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos. Seguindo as sua pegadas, todo o cristão, tal como a Igreja a que pertence, tem uma missão de serviço para a salvação do mundo.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

terça-feira

Homilia de Hoje: Cem vezes mais*

O texto evangélico de hoje continua o tema de ontem. Em nome dos seus companheiros, o apóstolo Pedro quer tirar consequências pessoais da declaração de Jesus a respeito do Seu seguimento mediante o total desapego dos bens: “Já vês que nós deixamos tudo e seguimos-te”. Segundo Mateus, acrescenta: “O que é que vamos receber?” Em resposta a tal pergunta, Cristo promete para o presente uma recompensa centuplicada e para o futuro a vida eterna.

Mas é preciso entender as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Em verdade vos digo, que quem deixar casa, irmãos ou irmãs, mãe ou pai, filhos ou terras por minha causa ou pela causa do evangelho, receberá agora, neste mundo, cem vezes mais [...] com perseguição; e no mundo futuro, a vida eterna”. Esse cêntuplo temporal é mais qualitativo que quantitativo. Após a renúncia aos afetos familiares e aos seus bens materiais, o discípulo encontrará na comunidade do Reino de Deus, na comunidade dos irmãos na fé, relações pessoais e até apoio material muito mais gratificante que as pequenas pertenças as quais renunciou. Até cem vezes mais; hipérbole que acentua a desproporção generosa da recompensa.

A pequena frase “com perseguições” é exclusiva de Marcos. Seria um toque de radicalismo – talvez uma adição posterior -, alusivo à experiência temporária das perseguições que o Messias anunciou aos Seus. Por outro lado, esta perseguição a tanta bonança prometida é uma advertência de que, pelo seguimento de Cristo, o discípulo está longe de ter todos os problemas resolvidos. Embarcar com Ele na aventura do Reino supõe estar disposto a enfrentar as tempestades que acompanham toda a travessia durante a vida.

De uma ou outra forma, a cruz é consubstancial ao seguimento de Cristo pelo caminho do Reino de Deus, como Jesus disse repedidas vezes. Mas também é segura a vida eterna no futuro como culminância de uma libertação já iniciada mediante o desprendimento e a pobreza. Deste modo o discípulo cristão não é caminho obscuro para a morte, mas para a vida; não é pobreza solitária, mas fecundidade humana e ganho presente e futuro. Os discípulos, que agora estão na categoria dos últimos, passarão um dia a ser os primeiros.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

segunda-feira

Evangelho 24/05/2010

Evangelho (Marcos 10,17-27)

Segunda-Feira, 24 de Maio de 2010
8ª Semana Comum

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 17quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele, e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!”
20Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” 24Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.

- Palavra da Salvação.
- Glória a vós, Senhor.

Homilia de hoje: Uma vocação frustada*

O evangelho de Marcos é o mais rico em assinalar pormenores emocionais de Jesus. Hoje, por exemplo, temos dois dos muitos “olhares” de Cristo que Marcos anota no seu evangelho. O primeiro é dirigido com carinho a um jovem rico, e o segundo aos discípulos com alento e compreensão. Os dois olhares marcam as duas partes de que consta o evangelho de hoje: encontro de um jovem rico com Jesus e lição deste aos seus discípulos sobre a riqueza.

Em certa ocasião um homem rico aproximou-se de Jesus perguntando-lhe: Bom mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Ele respondeu-lhe enumerando os mandamentos. O rico – um jovem, segundo Mateus – diz tê-los cumprido desde pequeno. Então Jesus olhou0o com carinho e disse-lhe: “uma coisa te falta: vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres – assim terás um tesouro nos céu – e depois segue-me”.

Ultrapassado o nível mínimo da lei, o Senhor entra numa etapa mais exigente: o desprendimento de tudo o que se possui. Só completando este segundo passo, a pobreza voluntaria, se acede à categoria de discípulo por meio do seguimento. Cristo faz a proposta seguindo seguindo as leis de uma pedagogia personalizada e responsabilizadora, isto é, sem oprimir nem impor, e respeitando a livre decisão do sujeito, que neste caso resultou negativa: “A estas palavras, ele contristou-se e saiu pesaroso, porque era muito rico”.

Perante o fracasso desta vocação, Jesus comenta: Como é difícil aos ricos entrar no reino de Deus. O desenlace da cena oferece-lhe oportunidade de instruir os seus discípulos sobre os perigos da riqueza e a necessidade do desprendimento dos bens terrenos para alcançar o Reino.

Porque ter alma de rico, isto é, “por a confiança no dinheiro”e no que se possui, supõe uma dificuldade tão grande para esse objetivo como a passagem de um camelo pelo buraco de uma agulha. Hipérbole oriental que ilustra bem a idéia. A pergunta para cada um de nós é esta: onde estamos colocando nossa esperança: em Deus, na sua palavra, ou no dinheiro, na nossa auto suficiência de viver uma vida sem Deus?

Riqueza evangelicamente falando, neste contexto, é uma vida onde tudo encontra-se em primeiro lugar e Deus em segundo. Por sua vez, pobreza evangélica é termos Deus como nossa única riqueza. Somente os pobres herdarão o Reino dos Céus.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

sábado

Homilia de Hoje: Herdeiros da fé Apostólica*

Hoje termina a leitura continuada que – durante estas sete semanas do tempo pascal – temos feito dos Atos dos Apóstolos, como primeira leitura e do Evangelho segundo São João como segunda. Os Atos mostram-nos a apaixonante história dos primeiros passos da Igreja e o anúncio missionário dos apóstolos sob a direção do Espírito Santo desde o dia de Pentecostes, em cuja véspera estamos. Por sua vez, o Evangelho de São João transmitiu-nos o testemunho do discípulo amado de Jesus sobre o mistério e a mensagem da Palavra de Deus feita carne. “E sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”.

Tudo isso nos convida a refletir hoje sobre a tradição apostólica, isto é, sobre a herança dos apóstolos, testemunhas da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e fundamento da fé que recebemos na comunidade eclesial.

Desde o princípio surgiu na Igreja a tradição apostólica da fé, que nos liga com a Palavra de Cristo Jesus, em quem acreditamos, a quem amamos e em quem esperamos sem tê-Lo conhecido pessoalmente. Essa fé recebemo-la da comunidade cristã, transmitida fielmente de geração em geração desde há dois mil e dez anos. Somos herdeiros da fé multissecular de gerações de crentes que souberam realizar, no seu contexto histórico próprio, o diálogo da fé com a vida, com a cultura e com o mundo do seu tempo.

A apostolicidade é uma das notas da verdadeira Igreja de Cristo, como dizemos na profissão de fé: “Creio na Igreja, que é una, santa, católica e apostólica”. O que significa o seu caráter “apostólico”?

1º - Que a Igreja afirma a sua origem em Cristo mediante o testemunho e a pregação dos apóstolos, testemunhas da Sua Ressurreição e fundamento da fé dos crentes. 2º - Que por vontade expressa de Cristo, que é alicerce invisível e a Pedra angular da Igreja, esta tem como fundamento visível da sua unidade e permanência, a cadeira e sede apostólica de Pedro e o seu sucessor o Papa, bispo de Roma e cabeça do colégio episcopal, como São Pedro foi o primeiro entre os apóstolos. 3º - Apostolicidade significa, finalmente, fidelidade da comunidade eclesial à fé transmitida pelos apóstolos e imitação do seu exemplo mediante o apostolado, isto é, pelo serviço perene à missão recebida de Jesus, que é a evangelização do mundo.

Só assim a Igreja é apostólica em plenitude: porque crê, mantém e difunde a fé em Cristo, recebida do anúncio e testemunho apostólico.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova.

sexta-feira

Homilia de hoje: Primado do Amor*

O evangelho de hoje contém duas partes. Na primeira Jesus confere ao apóstolo Pedro uma investidura pastoral preeminente, e na segunda pré-anuncia-lhe o seu destino de mártir. Está subjacente neste evangelho a tradição neotestamentária de uma aparição do Senhor ressuscitado a Simão Pedro, e vemos também a afinidade com a passagem do primado segundo Mateus.

Na tripla pergunta de Cristo: “Simão, amas-me?”, e na correspondente resposta do apostolo com a sua tripla e humilde: “Sim Senhor, tu sabes que te amo”, há por parte de Jesus uma reabilitação de Pedro na sua condição de discípulo depois da sua tripla negação na noite da paixão. É a sua oportunidade e o seu desquite. A cada resposta de Pedro, Jesus acrescenta: apascenta as minhas ovelhas. É a sua tripla investidura pastoral, que consuma a reabilitação com tal posto de confiança. Encontramos, pois, aqui um testemunho escrito em finais do séc. I em que aparece o apreço comunitário sobre a missão e autoridade pastoral de Pedro na Igreja.

O ministério de Pedro – e do seu sucessor o Papa, Bispo de Roma – é o primado do sérvio e da caridade na Igreja de Cristo. Carisma que não se lhe concede para prestígio próprio nem se baseia na sua capacidade pessoal e extraordinária, pois é patente a sua debilidade humana. Tudo é graça, dom e presença invisível de Jesus pela for;Ca do seu Espírito.

Jesus examina Pedro pelo amor, e há de reconhecer que conseguiu uma distinção que, noutra ocasião, merecerá uma reprovação. E examina0o sobre o amor porque a sua tarefa como guia das ovelhas do bom pastor, que é Cristo, terá de exercer-se à base do amor ao rebanho, segundo aquelas palavras de Santo Ambrósio: “Cristo deixou-nos Pedro como vigário do seu amor”.

Já na última ceia Jesus dissera ao apostolo: “Simão, Simão! Olha que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo. Mas eu pedi por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu, quando te recuperares, confirma os teus irmãos”. Pedro é, efetivamente, o primeiro entre os seus irmãos. Mas a autoridade dentro da comunidade cristã é serviço, a exemplo de Cristo: “O primeiro entre vós deve ser o servidor de todos, e o que manda como o que serve”.

A morte de Pedro que Jesus lhe vaticina em enigma: “quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres”, será a prova definitiva da sinceridade da sua tripla profissão de amor a Jesus e da sua fidelidade à missão recebida.

Mas já antes Pedro teve ocasião de testemunhar o seu amor e a sua fé em Cristo e de salvaguardar a comunhão eclesial ao serviço da missão. Por exemplo, chegado o momento da prova, perante o conselho dos judeus e desafiando a sua ordem, Pedro proclama a morte e ressurreição de Jesus, porque “é preciso obedecer antes a Deus que aos homens”. Igualmente, no Concílio de Jerusalém soube manter a abertura missionária da Igreja aos pagãos e conservar a união dentro da comunidade.

Também hoje é dia de pedir ao Pai que haja depressa um só rebanho sob um só pastor para que o mundo inteiro creia que Jesus Cristo é o enviado pelo Pai.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

quinta-feira

Homilia de Hoje: O Sinal de Unidade*

A união dos cristãos é um tema de perene atualidade. Necessitamos do dinamismo da conversão contínua e progressiva para a unidade, tanto no interior da Igreja, como à nível ecumênico ou intereclesial. União primeiramente entre os membros da própria Igreja, e união depois com os cristãos das diversas confissões.

É normal que haja diversos pontos de vista no que é acidental, e diversidade de opiniões para problemas que surgem em situações sócio-culturais distintas. Mas não é cristão que por isso levantemos muros de divisão, com escândalo dos que nos vêem de fora. Ponhamo-nos de acordo no essencial a nível interno mediante o amor e o dialogo, e respeitemos as legítimas diferenças. Assim não perderemos eficácia missionária e evangelizadora.

Critérios que são válidos também para as relações com os irmãos separados. É evidente o contra testemunho que hoje, como durante séculos, nos os seguidores de Jesus oferecemos ao mundo, divididos em diversas confissões cristãs. Jesus rezou ao Pai: “Que todos sejam um para que o mundo acredite que tu me enviaste”. Graças a Deus está em marcha o movimento ecumênico que trata de reunificar o corpo de Cristo, desmembrado através da história por culpa e intransigência de uns e de outros.

Felizmente, é muito mais o que nos une do que o que nos separa. Pontos básicos e comuns são estes: 1º - Fé em Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e Pai Nosso, a quem rezamos a oração comum dos filhos de Deus; o Pai Nosso que Jesus nos ensinou. 2º - Fé em Jesus Cristo, Filho de Deus e salvador nosso, por quem temos a vida de Deus num mesmo batismo. 3º - Fé no mesmo Espírito vivificante. 4º - O mesmo evangelho, basicamente o mesmo credo e, fundamentalmente, a mesma palavra de Deus na Bíblia.

Tudo nos diz que somos “irmãos separados”que devem unir-se, segundo o desejo de Cristo, para que o mundo acredite nele e para que haja um só rebanho, uma só Igreja, sob um mesmo pastor. São Paulo expressava assim o ideal e fundamento da unidade cristã: “Um só corpo e um só Espírito, como uma só é a meta de esperança da vocação a que fostes chamados: um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos”(Ef 4,4s).

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

quarta-feira

Homilia de hoje: Consagrados na verdade*

O nosso testemunho da verdade, que é Cristo, centra-se no amor, segundo o desejo de Jesus: “Que sejam um como nós, para que o mundo acredite”. Por sua vez esse amor brota do amor que Deus nos tem e pelo qual nos oferece a nova vida pascal em Jesus e pelo seu Espírito. “Se Deus nos amou desta maneira, também nós devemos amar-nos uns aos outros”. Disto somente é capaz quem vive como consagrado e santificado pela verdade, isto é, em união com Cristo.

Para testemunhar essa nova vida de consagrado, o cristão deve experimentá-la antes e vivê-la pessoalmente pela fé, pois esta nova vida está com Cristo escondida em Deus. Por isso o crente não tem distintivo exterior algum que o identifique. O júbilo pascal da nossa adoção filial por Deus pertence ao mundo da fé; e a fé é, antes de tudo, experiência vivencial, dom e graça do Senhor, e não mero conhecimento conceitual do mesmo.

A vida nova com Cristo, fruto da nossa consagração pelo Pai, é oferecida a todo o que acredita que Jesus é o Filho de Deus, como repete insistentemente o quarto evangelho. Com a força dessa fé e vida nova seremos capazes de transformar tudo, dentro de nós e à nossa volta: trabalho, estudo, vida familiar, problemas pessoais, compromisso social, solidão, doença e morte.

Temos de provar, de gostar e de ensaiar com entusiasmo a nossa vida pascal, convertendo o coração aos bens do alto, ainda que sem nos desinteressarmos das pessoas e do mundo. Consideremo-nos mortos para o pecado e suas obras, e ressuscitados com Cristo para Deus. Dois tempos ou movimentos de uma mesma melodia, com aparência negativa o primeiro e com nome positivo o segundo, mas inseparáveis e, no fundo, iguais.

Para vencer o ódio do mundo, no meio do qual temos que viver, não há meio melhor e mais convincente que o testemunho da verdade pelo amor.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

terça-feira

Homilia de Hoje: Oração de Jesus* 18/05/2010

O Evangelho nos traz a oração de Jesus ao Pai diante de Seus amigos e em voz alta e é um convite para os discípulos e, hoje, para cada um de nós, para que sejamos, cada vez mais, homens e mulheres de oração, de intimidade com o Pai, por meio do Filho, na ação do Espírito.

Mas diz-se que hoje em dia há crise de oração entre os cristãos; que se reza pouco e quando se reza, reza-se mal. Contudo, felizmente, não faltam casas, grupos e vigílias de oração.

A jovem Igreja começou o caminho histórico da missão treinando-se na oração comunitária, e não por uma atividade febril sem contato com Cristo e o Seu Espírito. Porque na oração, que cria comunhão com Deus, está a força da comunidade e do cristão para testemunhar aos homens a presença de Cristo, o Senhor glorioso e Salvador da humanidade.

Necessitamos orar sempre, e com mais intensidade ainda nos momentos de crise pessoal ou comunitária, para nos reafirmarmos na nossa identidade cristã. Porque então só nos pode reabitar um encontro pessoal com o Deus, que é vida e amor, dons dados a quem com Ele se comunica.

A oração é falar com Deus como pessoas livres; mais ainda, como filhos Seus que somos. Saber rezar não é difícil; basta falar com o Senhor. Muitas vezes, sequer é necessário falar, pois escutar é o suficiente. A nossa oração pode ser individual ou comunitária, mental ou vocal, espontânea ou já construída (salmos, preces, cânticos, bênçãos, etc.), e a oração por excelência: o Pai-Nosso.

Necessitamos orar, quer seja nas ocupações de cada dia, quer seja retirando-nos a sós com Deus. Mas num e noutro caso, escutando a Jesus, que é escutar o Pai, e orando com Ele para captar o mistério do inexprimível e testemunhá-Lo depois aos nossos irmãos, os homens. Porque a oração, a contemplação e a experiência de Deus, quando são autênticas, passam à ação de libertação em cada um de nós. Isso é levar a oração à vida e a vida à oração.

Convençamo-nos: a oração com Jesus nos é indispensável para uma vida cristã autêntica e fecunda. Hoje é ocasião de nos perguntarmos como e quanto rezamos individual e comunitariamente. Santa Teresa sempre dizia às suas filhas e Deus, por meio dela, a cada um de nós: quem reza muito, se salva; quem reza pouco, se condena.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

segunda-feira

Homilia de Hoje: Um ilustre desconhecido*

Se queremos definir o Espírito com uma expressão atual e bíblica, vital e única, teremos que dizer : é o dom do Cristo ressuscitado à Igreja, que é o seu corpo; é o Espírito do próprio Jesus em nós; é o “nós”trinitário e a consciência eclesial; é o amor que Deus nos tem, difundido nos nossos corações; é a nossa nova dimensão pessoal e comunitária de discípulos de Jesus, cristãos, filhos de Deus e irmãos dos homens.

Nos nossos dias assistimos com alegria ao redescobrimento do Espírito na Igreja, que põe em relevo o protagonismo decisivo do Espírito na renovação interna do povo de Deus e na sua missão evangelizadora do mundo. Os carismas e a chama do Pentecostes não se apagaram e são perceptíveis nos constantes movimentos que de um ou outro modo vivificam a Igreja, tais como: comunidades neocatecumenais e carismáticas, cursilhos, movimento de casais, grupos de oração, ecumenismo e libertação; elem dos institutos de vida consagrada, tanto religiosos como seculares.

Estes institutos, ordens e congregações religiosas, tanto masculinas como femininas, assim como os institutos seculares e sociedades de vida apostólicas, exercem um carisma próprio para funções concretas na missão universal da Igreja. Tais como: contemplação e oração; evangelização do povo fiel e das nações não cristãs; ensino e educação de crianças, adolescentes e jovens; atenção aos doentes, idosos, pobres a marginalizados; trabalho nos meios de comunicação social ao serviço da fé e da missão; testemunho e consagração a Deus da vida e ocupação quotidiana no mundo.

A força e a ação do Espírito manifesta-se não só nestes carismas que têm já forma institucional na Igreja, mas também na vida de todo o crente, homem ou mulher, que reforça a sua vocação cristã com um coração animado.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

domingo

Homilia de hoje: Vós sereis minha testemunhas

Com toda a Igreja, celebramos neste final de semana a solenidade da Ascensão de Jesus Cristo ressuscitado ao Céu. Estamos ainda dentro do tempo Pascal, tempo este em que celebramos a ressurreição do senhor durante cinqüenta dias num único mistério celebrado: o mistério da Páscoa do Senhor.

Como nos diz Lucas na primeira leitura, durante quarenta dias Jesus Cristo ressuscitado se mostrou aos seus discípulos, manifestando a sua ressurreição. Mas é preciso que Cristo parta para junto do Pai, para que o Espírito possa vir à comunidade fazendo com que a Igreja possa nascer.

Jesus leva seus discípulos para o ponto mais alto do monte das oliveira, perto de Bethânia – pois esta aldeia se encontra na encosta oriental do monte das oliveiras – e ali ascende ao Céu para junto do Pai, para que possa mandar o Espírito Santo aos discípulos.

É interessante percebermos no evangelho de Lucas, que ele tem a pretensão de apresentar para a sua comunidade e para cada um de nós, que Jesus encontra-se constantemente caminhando, subindo, para Jerusalém; para Lucas, Jesus, apresentando a face do Pai, um Deus totalmente tomado de compaixão, amor e misericórdia para com seus filhos, é dinâmico, ou seja, está sempre em movimento, caminhando para Jerusalém, Jerusalém esta que é muito mais que um lugar geográfico: é o lugar da sua entrega, do cumprimento da vontade do Pai. Todavia, o mesmo evangelista Lucas, escrevendo os Atos dos Apóstolos, nos apresenta a Igreja, em Cristo, sob o poder e força do Espírito que parte de Jerusalém, rumo a todos os cantos da Terra para levar a Boa Nova da ressurreição do Senhor.

Jesus deixa claro para os discípulos que importantíssimo que ele se vá, para que possa enviar o Paráclito, o Espírito da verdade. O mesmo Espírito que moveu Jesus a uma entrega total a missão que o Pai lhe confiou, é o mesmo Espírito que virá sobre os discípulos e fará com que a salvação do Pai em Jesus se perpetue na história até a segunda vinda de Cristo, por meio da sua Igreja. Jesus subindo ao Pai, faz com que o Espírito venha para que a continuidade da salvação e redenção da humanidade continue sendo atualizada e realizada, agora, mediante sua Igreja. Jesus Cristo, para Lucas, vai a Jerusalém e de Jerusalém parte a Igreja, Igreja esta que nada mais é que o corpo místico de Cristo: Ele é a cabeça e nós – batizados somos os membros, sendo que o que anima este corpo e dá vida, nada mais é que o próprio Espírito Santo.

Jesus vai ao Pai e agora começa a nossa missão, a missa da Igreja. A pergunta é: para onde estamos olhando? Estamos olhando para o que os outros – na Igreja -, para aquilo que estão fazendo ou deixando de fazer? Estamos olhando para outras realidades, que não condizem com a vida e a vocação de quem é Igreja pelo batismo que recebeu? Estamos olhando para aquilo que devemos ser enquanto Igreja missionária de Jesus Cristo, com o intuito de anunciá-lo e testemunhá-lo perante o mundo?

Não ficaremos e não estamos órfãos! A presença do Espírito mostra a presença de toda a Trindade em cada um de nós Igreja, graças ao Espírito que nos foi dado. Cabe a nós vivermos nossa vocação de anunciar o Cristo ressuscitado até os confins do mundo, a começar nos ambientes que Deus nos colocou: família, trabalho, sociedade… aonde estivermos.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

sábado

Homilia de hoje: Oração em nome de Cristo*

No evangelho de hoje expõe Jesus suas conseqüências que resultam da união com os seus. Em dias anteriores deste tempo pascal, meditando sobre o discurso de despedida de Cristo, vimos o círculo de amor que se estabelece entre o Pai, Jesus, o Espírito, os crentes e estes entre si. Hoje extraem-se duas aplicações de tal intimidade e comunhão de vida. A primeira, a respeito da oração; e a segunda, a respeito do conhecimento de Jesus do Pai. São “privilégios” de que desfrutará o discípulo de Cristo.

Jesus assegura o cumprimento das súplicas feitas ao Pai em seu nome. “Em verdade vos digo, o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará. Até agora não pediste nada em meu nome; pedi e recebereis para que a vossa alegria seja completa”. Dado que o crente experimentará a presença de Jesus na imanência do Espírito nele, permanecerá unido a Cristo e, portanto, em comunhão também com o Pai, com o qual Jesus é uno.

Os discípulos não podiam alcançar essa união profunda com Cristo enquanto não recebessem o dom do Espírito, que é o fruto da glorificação de Jesus, isto é, da sua morte e ressurreição. Por isso, “até agora não pediram nada em seu nome”, em união com ele. Além disso, o que se pede a Deus em nome de Jesus, também se recebe do Pai em nome de Cristo. É óbvio, por outro lado, que não se trata de solucionar tanto as necessidades ordinárias da vida quanto as que dizem respeito à vida eterna: “para que a vossa alegria seja completa”.

Essa alegria cristã fundamenta-se, em última instância, no conhecimento pleno de Jesus como revelador do Pai: Falei-vos disto em figuras; chega a hora em que já não vos falarei em figuras, mas vos falarei do Pai claramente”. É o segundo privilégio do crente: conhecer em plenitude quanto Jesus revelou.

Isto consegue-se com o dom do Espírito que procede do Pai e de Jesus e que faz nascer para os crentes a sua condição de filhos de Deus, de modo que o conhecimento deste resulta quase conatural. Como dizia São Paulo: “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois veremos cara a cara”; com a diferença de que, segundo São João, esse conhecimento final se antecipa para o momento presente, porque o futuro já começou.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

sexta-feira

Homilia de hoje: Amai-vos como eu vos amei!

Hoje celebramos – em toda a Igreja e com toda a Igreja – a festa do Apóstolo São Matias, escolhido para completar o grupo dos Doze Apóstolos, no lugar de Judas Iscariotes. Como os outros devia também testemunhar a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em oração pedem que o Senhor lhes mostre quem seria o escolhido e a “sorte” caiu sobre ele [Matias], que assumiu sua missão e ajudou a firmar a Igreja nascente. É bonito ver este momento, no qual a Igreja em comunhão se coloca diante do Senhor e pede Sua luz para o discernimento necessário. A Igreja do primeiro século tem muito a nos ensinar (Cf. Deus Conosco, p. 14).

A maior graça que recebemos no dia de nosso batismo é ser concebidos, em Deus, como Seus filhos adotivos. Deixamos de ser simplesmente criaturas, para, também, nos tornarmos filhos de Deus de modo a podermos e devermos chamar – tratar – Deus de “Pai”, “Papaizinho”. Na verdade, por pura iniciativa do Todo-poderoso, Ele nos trata, não como servos, mas como amigos. E o que é um amigo, senão aquele em quem podemos confiar e contar; aquele que nos conduz para Deus por ser amigo de Deus; aquele que não nos abandona, mas nos segura nos momentos em que titubeamos?

O mandamento de Jesus é desafiador para cada um de nós: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Que desafio! Como amar o outro como Jesus nos amou e nos ama? Muito mais do que nos preocuparmos em amar, devemos nos ocupar na forma correta de viver este amor. Santa Terezinha do Menino Jesus “revoluciona” a Igreja ao descobrir sua vocação específica dentro de um estado de vida específico, ou seja, dentro da vida religiosa ela descobre o específico do seu chamado: “No coração da Igreja eu serei o amor”. Num primeiro momento, percebendo na frase desta santa, vemos um teor muito poético; mas, na sua vida, vemos a tradução destas palavras em vida concreta. Para a vivência deste amor, a grande santa francesa nos ensina que devemos viver uma teologia das pequenas coisas, viver o amor nas pequenas coisas do dia a dia. Gosto de dizer e repito – especialmente para mim: coisas grandes qualquer pessoa desesperada faz; as pequenas coisas, somente os santos.

Falando em amor nas pequenas coisas, tenho percebido isso na minha vida de forma muito forte e profunda, por meio da qual Deus tem me falado fortemente: nosso sorriso, nosso “bom dia”, nossos gestos, nosso abraço, nosso acolhimento, nossas palavras, nossas atitudes… precisam ter poder de ressurreição na vida das pessoas que conosco convivem. Costumamos viver isso na Canção Nova, entre nós comunidade, por meio de um bilhetinho, de uma mesa posta para o irmão, para a irmã que vai chegar tarde e cansada, tem poder de ressuscitar uma vocação, uma vida. Nas pequenas coisas…!

O amor de uns para com os outros, como o Senhor nos amou, terá de passar por estas realidades, custe o que custar, necessariamente. Mas será que teremos condições para viver este amor, o amor maior capaz de entregar a vida pelo irmão nas pequenas coisas? Sim, pois Aquele que nos chamou nos capacita. Aliás, não foi nós que escolhemos segui-Lo, mas Ele quem nos chamou. E Aquele que chamou nos capacitará para a missão. Basta nos abrirmos, a exemplo de São Matias.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

quinta-feira

Homilia de Hoje: A Alegria do Espírito*

O tempo da Igreja é, pois, o tempo do Espírito Santo. Se ontem vimos este como o Espírito da verdade, hoje conhecemo-lo como Espírito da alegria profunda dos crentes. A ressurreição de Cristo fundamenta a alegre esperança da nossa. E ainda que seja certo que a fé pascal não é um calmante que suprima a dureza da vida nem a limitação da morte, nem as pegadas desta manifestas no penoso caminhar dos humanos, também é constatável que aquele que acredita e espera em Cristo mantém um modo de ver distinto frente às realidades negativas da existência.

Tudo isso porque o Espírito do Senhor ressuscitado vive em nós, animando a esperança e a alegria, ajudando-nos a entender de forma cristã a mensagem positiva que paradoxalmente se encerra em termos como cruz e morte, e ensinando-nos abertamente que a última palavra não a tem o mal, mas o bem; não a morte, mas a vida.

Porque Cristo vive, temos vida também nós pelo seu Espírito. Por isso podemos repetir com o salmista: Não hei de morrer, eu viverei para contar as façanhas do Senhor. E com São Paulo: Se a nossa vida está unida a Cristo numa morte como a sua, estará também unida numa ressurreição como a sua. Assim estaremos prontos para dar razão da nossa fé e esperança a todos os que nos pedir. Esplêndida formulação da prática cristã que sabe conjugar a fé, a esperança e o testemunho da alegria no caminhar diário.

Hoje temos de examinar-nos sobre a imagem cristã que damos perante os outros. Num mundo sem Espírito, sabemos testemunhar o gozo do Espírito e dar razão da nossa esperança? Com o nosso exemplo de alegria, paz e amor fraterno temos de tornar credível a palavra bíblica: “Os que se deixam levar pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Recebeste não um espírito de escravidão para recair no temor, mas um Espírito de filhos adotivos que nos faz chamar: Abba – papaizinho!”

Não temais, dizia Jesus aos discípulos na sua despedida; eu venci o mundo. Mas necessitaram que o Espírito lhes recordasse para o entenderem. Também nós.

Padre Pacheco,
Comunidade Canção Nova.

quarta-feira

Homilia de hoje: O Espírito de Verdade*

No Evangelho de hoje temos duas das seis tarefas que Jesus atribui ao Espírito do seu discurso de despedida, como estamos vendo nestas últimas semanas da Páscoa. Primeira - Acompanhar os discípulos da ausência de Jesus. Segunda - Recordar-lhes as palavras de Jesus. Terceira - Dar testemunho d’Ele. Quarta - Fazer um julgamento constante sobre o pecado e a injustiça do mundo. Quinta - Conduzir os discípulos até a verdade plena. Sexta - Glorificar Jesus.

Embora necessitemos imperiosamente de fazê-lo, é difícil falar hoje do Espírito Santo a um mundo vazio de espírito, rico de matéria e submerso na incredulidade. Como foi difícil a São Paulo anunciar o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo aos atenienses “ao Deus desconhecido” e dos argumentos em que a filosofia grega dos estóicos coincidia com a revelação bíblica, para entrar o seu discurso no conhecimento de Deus em quem vivemos, nos movemos e existimos; mais ainda: de quem somos descendência. Tudo isso convida à conversão a Deus que constituiu juiz Jesus, ressuscitando-O de entre os mortos.

Ainda que o Espírito de Deus atue também fora da Igreja, é a comunidade de fé o espaço natural da Sua presença e ação, segundo se depreende do discurso de despedida de Cristo. Assim se conclui também da leitura continuada que vimos fazendo do livros dos Atos, que além de ser um ensaio histórico-teológico da Igreja nascente, é também a primeira melhor teologia do Espírito. Este comunica-se ao grupo cristão mediante os sacramentos, de maneira que, a partir do batismo, toda a nossa vida cristã está marcada pela ação d’Ele [Espírito Santo de Deus].

Necessitados de estar conscientes disso e pedir, com frequência, à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade a coragem que nos é indispensável para sermos cristãos hoje em dia, isto é, para confessarmos Cristo como Senhor das nossas vidas, para sermos membros ativos de uma Igreja missionária, para podermos rezar o Pai Nosso, para enchermos o nosso vazio, derretermos o nosso gelo e vencermos o pecado com a força do alto, para vivermos, enfim, a moral cristã com prazer de filhos de Deus e como lei do Espírito, que dá vida e liberdade em Cristo Jesus.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

terça-feira

Homilia de hoje: Não estamos sós*

A presença de Cristo na Sua Igreja por meio do Espírito adota as características de uma sentença judicial favorável a Ele. Nela culmina o processo que estava em marcha na vida do Mestre e que continua na existência da Sua comunidade eclesial. Esta encontra-se como que diante um tribunal no foro deste mundo. Mas o Pai revê o processo do qual resultou a condenação de Jesus à morte. Agora sairá reabilitado graças à intervenção do Espírito da verdade, que “deixará convicto o mundo com a prova de um pecado, de uma justiça, de uma condenação. De um pecado, porque não acreditaram em mim; de uma justiça, porque vou para o Pai e não me vereis; de uma condenação, porque o príncipe deste mundo já está condenado”.

O Espírito evidenciará o pecado do mundo, que consiste na incredulidade; deixará claro, além da justiça, o direito e a razão que tinha Jesus a chamar-se Filho de Deus, pois efetivamente o é, como o demonstra a passagem da Morte à Ressurreição do Crucificado como vencedor da morte eterna e da sua causa, o pecado, que é o único poder que tem satanás.

A convicção de que Jesus ressuscitado está vivo e operante na nossa vida pessoal e no coração da comunidade de fé radica no dom do Espírito, que se manifesta na nossa abertura à vida, ao amor, à paz e ao perdão fraterno, Nunca estamos sós na nossa solidão.

O evangelista João, comentando a metáfora de Jesus no Templo, “torrentes de água viva”, afirma: “Dizia isto referindo-se ao Espírito que havia de receber os que haviam acreditado nele. Pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado”. Daqui se conclui não só que Cristo ressuscitado é quem outorga o Espírito, mas também que a incumbência deste último é continuar a presença viva de Jesus entre os que creem n’Ele.

Pois bem, o julgamento contestatório e testemunhal, o julgamento da apelação do Espírito, não se realiza sem a colaboração dos crentes, sem o nosso compromisso pessoal e comunitário de fé no meio do mundo. O Espírito consolador é o melhor antídoto contra a tristeza e o medo do coração dos discípulos, isto é, dos crentes de todos os tempos, entre os quais, felizmente, nos contamos também nós.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova